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Ódio de fera, amor de cão - Jardim das delícias, coluna site Revista da Cultura

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Sinto um arrepio quando vejo alguns pais por aí. Mais do que o amor, creio que a raiva e o ódio têm uma eficiência atroz para marcar, tatuar do lado de dentro de um ser humano – que dirá de um filho. Em “A árvore da vida”, há algo desses olhares no personagem de Brad Pitt – como se quisesse que o filho simplesmente desaparecesse, um desejo de morte. Aqui, meu personagem pode sumir e reaparecer magicamente, sem o constrangimento de “Édipo arrasado”, de Woody Allen, neste céu mais para aquele poético e simbólico de “Asas do desejo” e seus anjos caídos. Mas dias e noites podem ser longos e solitários para pais, filhos, todos nós – quando o desamparo e a solidão nos acenam com desespero, “Everybody hurts” (R.E.M)... Às vezes nos falta à vista nosso objeto de amor, para olhar com olhos úmidos, apaixonados e devocionais... Um efêmero antídoto. Ódio de fera, amor de cão Ele poderia ter olhares ferozes. O pai. E não só olhares. A mesa virada num golpe, o almoço espalhado pelo ch...

Estreia Jardim das delícias, coluna site Revista da Cultura: Chá com um cisne

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Aprecio chás, sem ter me tornado uma fã de variações gourmet – nesta cidade onde agora têm se espalhado lugares não só para beber, mas principalmente adquirir infusões de misturas surpreendentes e nomes encantatórios. Minha simpatia é por algo de botica nessas tea shops , de herbário onde se encontraria cura para todas as doenças do corpo - e da alma... Aqui meu personagem é uma carinhosa brincadeira com um amigo e também homenagem ao mais famoso Nabokov, adaptado por Kubrick – hoje fantasia onipresente que pode assumir ares de perversão. Neste meu caro hotel, em vez de um cool jazz , pode tocar “O cisne”, de “O Carnaval dos Animais”, de Camille Saint-Saëns, na versão com Yo-Yo Ma ao violoncelo. De mood um pouco melancólico, este personagem pode se sentir parte de outro tempo e lugar, talvez da Viena de Schnitzler, talvez da Riviera Francesa de Cary Grant e Grace Kelly em “Ladrão de Casaca”.   Boa degustação! Chá com um cisne           ...

homem-besta

A unha. Dele. Daquele polegar curto e desproporcional. Dele. Talvez na sucessão das gerações, os pedaços tenham se perdido, encurtando dedos, deformando mãos. A dele, pequena, menor que a dela. Se deixada por conta própria, a unha daquele polegar cresceria como garra. Além de curvar, enegrecer. Por ser enterrada em carnes, caçar, predar. Mais do que vontade, instinto, rastro da besta. Dentro dele. Besta inscrita no interior daquele homem. Outro tipo de tatuagem, de marca de posse e patrimônio. Para além do corpo, também o que fosse aparentado de espírito ou de alma. Tempero para apetecer na devoração. Danada, a besta. Cada vez mais. Envolvendo este homem em um abraço
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Abertura do "Letras em Cena" 20.maio.2013 MASP - Museu de Arte de São Paulo Leitura de trechos de  TRAÇO COMUM crac crac 1,5 litro PALAVRACIDADE Casa-Casulo Casa-Labirinto Entrevista http://www.letrasemcena.art.br/html/entrevistas.aspx?EntrevistaID=2044

crac-crac

versão em espanhol de "crac crac", trecho de "Traço comum" tradução de  Eduardo Peñuela Cañizal, a quem agradeço - sempre, muito.  Gresca antigua. Tirria engurruñada por el tiempo.  Retacada conserva en lata. Unos 20 años. Por lo menos.  El sabor granó. Y entonces el gusto fue de veras delicia. De venganza. Después. Ahora, sólo una comezón torpe. Luego cuando supo. En el mismo día. Él volvió. Sí. Para el terruño de 35 mil individuos. Y siempre menguando. Las gentes se van. De muerte o de éxodo ciertamente. Los que permanecen se conocen. Y ahí el chisme es bicho más que suelto. Evidente. Él espera. Un día u otro cae. Claro. Ahí se las verá conmigo. Tiene gracia. Pensó. Armó. Espera. El desafecto es pajarillo. Flacucho. Quiere apretar y sentir el crac-crac de las alitas: quebrándose en la mano cerrada. No pienses que vas a volar así perpetuamente, no. Un día. Claro. Luego. Y de esa manera sucedió. Una noche, aguardó en

Pinóquio, gente inflamável?

Uma dentista queimada viva porque só tinha R$ 30 na conta. Os suspeitos, na cara-de-pau e sem nariz de Pinóquio, assumem o crime no mesmo dia do enterro da vítima e do comentário do governador: bárbaro, uma vergonha. A foto do jornal é ruim, um sofá estofado azul com um dos lados queimados, mas serve para dizer: sim, isto aconteceu. Em outra foto pequena, uma jovem sorridente de cabelos encaracolados e beca preta da formatura em Odontologia - é o que ninguém afirma, mas todos deduzimos. Daquela mulher, não vemos os dentes, se acaso são perfeitos, modelo para seus futuros pacientes – dentes brancos e limpos, igual ao coração de Jesus, poderia alguém dizer por aí, pelas ruas onde a notícia corre por muitas outras bocas e ouvidos. Naquela manhã, um homem chega ao consultório: é uma emergência. A dentista logo supõe um canal infiltrado e inflamado, o pus, a dor fazendo latejar a cabeça do pobre coitado. E

ninhos

A PM não mais platinada. Ainda os mesmos olhos pequenos e redondos. A boca delicada que ali, no Fórum, fica sem batom nem gloss . Lábios vestidos de contentamento e orgulho. Naquele momento. Um sorriso. Ela pega então o livro. De capa vermelha. Onde é também personagem. E o guarda. No peito. Sob o colete. À prova de balas. Porque apesar das histórias, de todo sangue, tiros e facadas, o livro ainda pode demandar escudo. Uma fragilidade. Mesmo que imaginária. Herança de sua autora. Esse almejar. Ninho e cuidado. Agora que guardado ali, aquecido, o livro silencia. E espera. Por ela. Sua dona e leitora. Para