Postagens

À beira do Etna - Jardim das delícias, coluna site Revista da Cultura

Imagem
Na Sicília, o Etna de novo em erupção. Desta vez, menos furioso, sem viscosos rios de magma nem evacuação de emergência. Não só vulcões, pessoas também podem explodir e jorrar lava, bufar colunas de cinzas e vapores sulfurosos. Ou não. Se extintas no lado de dentro. Não! Que haja um interior de vida incandescente – ainda que passível de descontrole, destruição, queimaduras... Amores de gente viva que perpassam o texto: “Minuto de silêncio”, de Siegfried Lenz e “Um homem apaixonado”, de Martin Walser. “ Love is a warm bearing wave ”… (Será?) À beira do Etna Ela lê. Os olhos marejam embaçando a visão, impedindo a leitura. Há tempos isso não acontecia. O choro causado pelo empréstimo e ocupação da vida de outra pessoa em palavras impressas. Neste livro, um jovem e seu primeiro amor, uma professora mais velha. Lições jamais esquecidas e se interrompidas abruptamente pela morte, desvio romântico e tão inesperado. Um livro da velhice de um autor.

Uivo mudo - Jardim das delícias, coluna site Revista da Cultura

Imagem
A consciência produz uma fissura no homem, uma angústia existencial que não há em nenhuma outra criatura. O estar consigo e no mundo longe de ser apaziguado, é povoado por um imaginário de monstros e criaturas híbridas, cindidas: Lobisomem, Frankenstein, Jekyll e Hyde, Drácula, e ainda outros tantos heróis – também químicos, insetos mutantes.  Aqui, os homens são um pouco bichos, modificados por uma mentira de mãe, tão comumente alardeada na infância: Eu amo vocês igual . Da inverdade, surge uma rivalidade identitária, tão primordial quanto o próprio afeto. Uma luta inglória.    Uivo mudo A mãe ali, deitada na larga cama. Bela adormecida, apesar do mal e seus medicamentos. Os filhos esperam. Em silêncio. O quê. Nenhum rosnar, nenhum suspiro. Só a monitoração de seu pulsar, regular e constante. Ainda. O homem-urso disfarça, mas admira o irmão, o homem-lobo. Ainda a mesma atração e repulsa por aquela sua altivez, os olhos de breu, a ferocidade que, be...

Pequena morte - Jardim das delícias, coluna site Revista da Cultura

Imagem
​ Sinto que morri muitas vezes. Por gestos e palavras alheias. Mortes ínfimas e agudas, de uma contundência feroz. Em lugar de um cadáver, resto sobrevivente. Por aí, sorrindo e disfarçando o sangue e as lágrimas, as carnes laceradas. Mas há outras mortes que podem se inscrever inevitavelmente no corpo. Ainda no cedo dos nossos tempos. Algumas lullabies para embalar sobreviventes: Dean Martin cantando Brahms, Creed, Tom Waits e Norah Jones, além da “Birdland” em versões de Stan Getz e Sarah Vaughan. A minha favorita do momento é Leonard Cohen: “If your heart is torn, I don’t wonder why. If the night is long, here’s my lullaby”. Pequena morte A mãe olha. Aquele montinho de carnes e dobras fabricado dentro dela. Um milagre. Ela olha e espera. Não outro milagre, mas algo tão natural: amor. Procura, vasculha dentro de si. Não acha. Deve estar escondido, daqui a pouco aparece, claro, é instinto. Os dias passam. Para além do desconforto, um vácuo. Ali. Em lugar ...

Alforrias - Jardim das delícias, coluna site Revista da Cultura

Imagem
Um amigo diz ter preguiça de “mulheres intensas”... Talvez mais do que preguiça, haja temor diante da possibilidade de dominação, devoração ou vingança por parte mulheres não só intensas, mas ameaçadoras como a “Lady Vingança”, do violentíssimo Chan-wook Park, ou a Noiva de Uma Thurman e Tarantino. Apesar de nossa descartabilidade contemporânea que abarca coisas e pessoas, orgulho e vaidade ainda nos atravessam – de forma contundente quando somos mais objeto do que agente. Pensando na liquidez de Bauman, talvez as pessoas possam constituir nascentes não só de águas cristalinas, mas também de sombrios e cáusticos desejos em velozes e violentas corredeiras. A lforrias   Ele sorri. Sozinho, olhando-se no espelho. De contentamento, mais de liberdade. Finalmente.  Alforriado do desejo por aquela mulher. Tão jovem. Ela e seus longos cabelos perfumados. A pele macia que cobria suas carnes ainda tão firmes. A boca brilhante de sabor artificial de cereja. Ele ri. A jov...

Dela, bicho da casa - Jardim das delícias, coluna site Revista da Cultura

Imagem
Meus temas pouco têm de rosas apesar de espinhosos... São palavras encadeadas em gesto, tentativa de abarcar inquietações, responder perguntas insistentes em ecoar nos vazios do lado de dentro. Há dias ouvi uma frase que, em outro tipo de insistência, permaneceu. Saída de uma boca pequena de lábios finos. Palavras que revelam fronteiras nebulosas, de uma sexualidade de dever e obediência, de violência.  Mulher real, sem se saber aparentada da jovem e moderna Umay de "When we leave", de Feo Aladag, da distante e muda Ada McGrath de “O Piano”,  com música de Michael Nyman, por quem sou fatalmente apaixonada.... Dela, bicho da casa Deve ser pior ser violentada por alguém que você não conhece. Foi o que disse, assim. As palavras escapando de sua boca sem pedir permissão nem passar por inspeção. Quando se dá conta, elas já perambulam pelos ouvidos alheios. Ela então enrubesce, abaixa o olhar. De vergonha e verdade. Se pudesse, chamava as palavras de volta. Ei, ...

Fome de cisne - Jardim das delícias, coluna site Revista da Cultura

Imagem
Cisnes, mesmo negros, jamais serão sinistros como os corvos de Hitchcock ou aquele, mais metafísico, de Poe. Eu os imagino pouco inteligentes, se naquela pequena cabeça o cérebro não pode ser muito maior do que uma noz-borboleta. Não. Cisnes não sofrem de abandono ou angústia. Nenhuma crise identitária ou evolutiva se acaso não nasceu nem pato nem feio. Cisne sem espelho. Com voo. E num dia, inspiração de Saint-Saëns e Tchaikovsky. No outro, disfarce de Zeus para seduzir Leda. Outros voos.  Fome de  cisne Ele nunca soube. Um dia, ele também cisne. Para ela. Se cisne na vida. Se patinho no afeto. Ao recuar assustado. Diante dela, após aquele chá do primeiro encontro. Ele teme. Aquilo, assim. Para ela, tão fácil. O amor. Um, também esse. Não. Não chegou a dizer. Ainda bem.   Agora, ela imune, ali, diante dele. Quase. Se ameaça evaporar naquele abraço. Longo demais. Na pressão da mão dele sobre seu braço. A mulher disfarça. Sabe. Ele a quer. Agarrar, seque...

Um cheiro morno de felicidade - Jardim das delícias, coluna site Revista da Cultura

Imagem
Zécarlos Machado em "Brincando de sanduíche", de Alan Bennett (foto: divulgação) Gentileza pode gerar gentileza, mas por trás da aparência, pode haver algo de inesperado e sombrio, algo por macular, ocultar, negar – sem intenção de um mal, antes movido por amor, busca por alguma felicidade. Texto em homenagem a Zécarlos Machado, amigo querido, ator não só talentoso, mas destemido diante das sombras de um personagem como o do monólogo de Alan Bennett, aparentado de Bill Maplewood de “Felicidade”, de Todd Solondz, e deste meu homem gentil.   Um cheiro morno de felicidade Um homem gentil. Assim diziam dele. Acostumou. Também tímido, de olhos baixos. Chamar atenção para quê. Ele então sorri, manso. Às vezes, em um inofensivo descontrole, ri aos borbotões. Não agora, quando olha para a menina. Ela, sim, ri. Aquela mãozinha em seu joelho. Ele sem tocar, mas sabendo da pele. Tão macia. Não somente das mãozinhas, o rosto e a barriguinha. As dobras, tão delicadas....