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Lágrimas de poça - Jardim das delícias - site Revista da Cultura

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A escrita nem sempre é autobiográfica, mas é fatalmente atravessada, perpassada pela vida, se alguma permeabilidade é mesmo inevitável. Mas no empenho semanal deste meu “Jardim das delícias” por vezes me pergunto de onde vêm esses personagens que podem causar estranhamento, um incômodo amargor na alma. Sem resposta, assumo que escrever tenha bem pouco de conforto, mais de tentativa de apaziguamento - “olé” de toureiro frente uma besta desafiadora e incansável. De um golpe, sei que por vezes sou lançada ao ar, finalmente atingida. Minha vez de ser atravessada, revide da escritura.  “Memorial”, de Michael Nyman, da trilha de “O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante” Lágrimas de poça Na casa. Um pai morto e fantasmático. Um padrasto violento sem rosto nem voz. Uma mãe passiva de muita exaustão. Um menino inocente e assustado. Uma menina de infância violada, mas que vê e ouve tudo: vivos, morto. Menina criança velha, capaz de agir. Matar. Família outra, escrit...

Calvin - Jardim das delícias - site Revista da Cultura

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Virtuais e expressos podem ainda assim constituir amores? Se há confiança e confidências. Se a cumplicidade se instala mesmo que na impossibilidade. Do calor, do cheiro e sabor dos corpos. Da textura da pele, do entreabrir a boca e fechar os olhos. Pela internet, um erotismo despejado nos ouvidos, teclado na urgência e no susto. Para ‘contaminar’ a leitura das palavras: as cores e a fotografia de “Amores expressos”, de Wong Kar-Wai, a voz de Cassandra Wilson em “Little warm death”. “But now I feel you near me See you much more clearly I can hardly wait to Feel you moving through my world oh my world Isn’t deep without you” Calvin Máxima prevista de 35⁰C. Sensação térmica de 38⁰C. A cidade imersa em calor e caos. Os ânimos das pessoas se acirram. As vontades amolecem. A mulher está em casa. A pele já suada. Mesmo se acaba de tomar banho. Frio, de sal grosso. Quer a pele lisa e limpa. Quer a alma leve e livre. De pensamentos obsessivos. De sombras...

Virginia - Jardim das delícias - site Revista da Cultura

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Diante de mortes recentes, disse para um amigo que, se pudesse, doaria anos meus. Tenho a sensação de que serão muitos. Talvez demais - uma ameaça. Meu viver me parece extenso, distendido. Se há muito recuo e acovardamento por aí. Preferia uma vida mais compacta, mais cheia de som e fúria. Sim. E aí, na conta final, uns anos a menos. A mais. Para que um cineasta fizesse ainda um filme. Para que um ator pudesse realizar mais de seus mergulhos - de pescador de águas profundas e espécimes raros. Não. Doar anos não é regra do jogo. Restam então saudades. De filmes não realizados. De pessoas que partiram. De dias não vividos. De sons. De outras, boas fúrias. Do ator, a alma em uma animação, das minhas mais acalentadas: “Mary and Max”, de Adam Elliot. Do cineasta, compaixão e sua incomparável empatia. Virginia O pé pesa sobre o acelerador. O salto alto do sapato favorito. Vermelho. O carro faz a curva. E se não fizesse. O muro. A pista contrária. Uma árvore, um poste.  ...

Uma mulher menina brava - Jardim das delícias - site Revista da Cultura

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A raiva é a mais patente das máscaras da fragilidade. Ainda que se alvorace de muito rugido e cara feia. Sem vacina nem baba espumante, é moléstia que, em vez de somente causar, germina da própria dor. De desespero e desamor, a raiva se posta à frente como escudo. Como se pudesse proteger, anestesiar. Empreitada fadada ao fracasso. Ainda que em meio à fantasia de cavaleiro andante. Na ilusão de moinhos de vento. Sem nobres ideais nem poesia. Só esforço por surdez, mudez. Aquela dor. Esforço tão inglório. Do contemporâneo de Cervantes, John Downland - “Come again”, na versão de Sting e do alaudista Edin Karamazov:   “Come again! that I may cease to mourn Through thy unkind disdain; For now left and forlorn I sit, I sigh, I weep, I faint, I die In deadly pain and endless misery.” Uma mulher menina brava Ainda menina, aprende. Aquela braveza. A cara de má. O olhar duro. A raiva em bomba, explosiva. E parece mesmo funcionar. Se meninos e meninas correm. Em fuga. ...

mão seca de mãe - Jardim das delícias - site Revista da Cultura

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Meu gato dá cabeçadas, mordisca meu braço pedindo cafuné. Em momentos de maior empolgação, morde como se eu fosse sua fêmea. Carinho conquistado então à custa de alguma dor e marcas de dentes pontiagudos. Entre as pessoas, os gestos de demanda por afeto são infinitamente mais sutis e variados – por vezes, também dolorosos. Na carne de dentro, cicatrizes que têm algo de pinturas rupestres, almejando contar uma história, fazer perdurar emoções e sentidos que também nos constituem e que, de alguma forma, também podem nos definir. Angustiados gestos de afeto dos meus últimos dias: a mãe de “A salvo de nada”, livro de Olivier Adam, e “Pais e filhos”, de Hirokazu Kore-Eda. mão seca de mãe A mulher olha para suas mãos. Uma velhice. Só das mãos. Rugas e manchas, os dedos nodosos. Como podia isso. Com a sua idade. Se nem tanto trabalho. O marido e as crianças. A casa. O quintal sem plantas nem caca de cachorro. Nada para lanhar assim. As mãos, aquele couro. Envelhecendo e encarqu...

Outras Índias - Jardim das delícias - site Revista da Cultura

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Kenneth Branagh em um Shakespeare ao sol da Toscana para afugentar meus moods melancólicos, personagens sempre tão angustiados e desencontrados... Porque o ano ainda só começa e que, apesar da incerteza do porvir, seja sempre possível “ hey nonny, nonny ”... Ainda que a resposta ao “Vem?....”, convite do afeto, não seja um “sim” em gestos ou palavras, em um tímido sorriso de largo contentamento... “Sigh no more, ladies, sigh no more.     Men were deceivers ever, One foot in sea, and one on shore,     To one thing constant never. Then sigh not so, but let them go,     And be you blithe and bonny, Converting all your sounds of woe     Into hey nonny, nonny.” "Sigh no more", de “Muito barulho por nada”, de William Shakespeare Outras Índias   Apesar do medo, ela sorri. Vai deixar acontecer. Ele, de novo em sua vida. Ele, o afeto. Mesmo se já houve tanto. Antes. Gestos bruscos. Palavras rísp...

Bai. Kyllä. Ndiyo. Igen. Da. Ja. Evet. Sì. Si. Sim. - Jardim das delícias - Revista da Cultura

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Um “sim” ao convite do afeto demanda coragem ao nos escancarar um abismo de vulnerabilidade, a assustadora vertigem da incerteza. Mais do que muitas ou poucas letras, este “sim” pode prescindir de todas e se fazer um diminuto sorriso, um corar das faces, um olhar fugidio. Que o novo ano, ciclo que se inicia, traga convites legítimos para que possamos dizer, amorosamente, “sim”... Como trilha, nada de árias de morte e despedida; mais a atmosfera, do que as palavras de “Saturday morning”, de Rachael Yamagata. Bai. Kyllä. Ndiyo. Igen. Da. Ja. Evet. Sì. Si. Sim. Um bip. Uma mensagem. No visor do celular, só um número. Dele. Nome apagado da agenda. Gesto invocativo de outro. Apagá-lo, aquele homem. Dali, do dentro dela. Não consegue. Claro. Agora. Esse frio na barriga. Esse tremor. Tonta.. . Bastou um punhado de palavras. Um “feliz ano novo” qualquer. Ela logo tomada por clichês amorosos do séc. XIX. Sem saber. Se amor. Se mais cisma ou encosto. Faíscas de Ogum cutucand...