homem-besta

A unha. Dele. Daquele polegar curto e desproporcional. Dele. Talvez na sucessão das gerações, os pedaços tenham se perdido, encurtando dedos, deformando mãos. A dele, pequena, menor que a dela. Se deixada por conta própria, a unha daquele polegar cresceria como garra. Além de curvar, enegrecer. Por ser enterrada em carnes, caçar, predar. Mais do que vontade, instinto, rastro da besta. Dentro dele. Besta inscrita no interior daquele homem. Outro tipo de tatuagem, de marca de posse e patrimônio. Para além do corpo, também o que fosse aparentado de espírito ou de alma. Tempero para apetecer na devoração. Danada, a besta. Cada vez mais. Envolvendo este homem em um abraço
demorado, onde coubessem todos os seus dias e pensamentos, todo o seu ser. A unha era, assim, pista do mando. A besta transbordando, cuspindo vestígios. O homem oscilando entre admiração e temor. Não reconhecia este que estava a se tornar. Homem-besta. Besta-fera. Ele percebe a unha-garra e, na incerteza, corta bem rente à carne. Sempre alerta. Porque crescia rápido. A unha. A besta. Dentro dele. (...)

Trecho de "Julie Hatta", em reescritura

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