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Mostrando postagens de Setembro, 2013

Un bel dì - Jardim das delícias, coluna site Revista da Cultura

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Adoro Puccini e já quis fazer uma versão de Butterfly, essa mulher de entrega, de espera vã. Gosto particularmente da gravação de Maria Callas talvez por imaginá-la Cio-Cio-San, deixando Onassis seguir para os braços de Jackie Kennedy. Nada Cinderela. Mas às vezes não é preciso uma rival. Basta um vazio, uma angústia que se escancare em cânion. Do lado de dentro, sem aviso. Faz parte da natureza humana. Cânions podem ser muito silenciosos, mas também verborrágicos. Em Thomas Bernhard, eles se abriam aos jorros, sem descanso nem parágrafos. O autor austríaco é a minha paixão dos últimos tempos - fadada a uma saudável irrealidade. Nada Cinderela, mas não Butterfly.
Un bel dì
O amigo telefona. Não poderá ir. Sente muito. Verdade parcial se não sente tanto assim. Ela também não. Um pouco chateada, mais por ir sozinha. De noite, ao centro, à ópera. Vai. Lá, venderia seu par de ingressos, compraria um. Só. Ela, avulsa. Foi o que fez. Logo aparecem dois estrangeiros. Um deles fala português. …

Chá com uma jovem loba - Jardim das delícias, coluna site Revista da Cultura

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Cenas e personagens podem persistir, demandar sobrevivência. Gosto de imaginar alguns andando por aí, perigosamente à solta. Aqui, a Lolita de “Chá com um cisne” encontra novamente seu Humbert Humbert  – talvez após um éclair e Lucien Freud, mas sempre atrasada e descabelada.
Mais do que pela personagem, escrevi pensando se pode haver no enamoramento (à Javier Marías), um instante decisivo (à Cartier-Bresson). De um simples olhar, revela-se algo de fatídico: um inescapável reconhecimento de afinidade - tão intenso e doloroso em “Stockholm Östra”, filme com Mikael Persbrandt, ator sueco que eu adoro.
Chá com uma jovem loba
Naquele instante. Uma eleição. Sem se dar conta. A mulher olha para ele.
Ela o quer.
Ele, tão distraído. Ela mesma, hipnotizada. Dele, enamorada. Mais do que das palavras, daquele timbre. Para sentir saudades. Mais se sussurrasse obscenidades. Mais se inimagináveis naquela boca. Dele. Larga e grave.
Ela o quer.
E faz do homem, alvo. Se é dia da caça. De se fazer caçador…

De um centauro macho - Jardim das delícias, coluna site Revista da Cultura

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Um encontro improvável: Robert Redford e Marina Abramovic. Na foto, vestidos com jalecos e protetores de ouvido brancos. Mas qual Redford é este? O meu favorito é Jeremiah Johnson do filme de Sydney Pollack. Solidão e dor em meio a montanhas e neve. Quando vi a foto, ouvia o Morricone de “1900”, com De Niro e Depardieu. Todos ainda tão jovens e bonitos... Mais invulgar, a beleza nos homens pode se tornar por demais protagonista, um fardo desconfortável. Incômodo de outra natureza, pode surgir daquilo de nós que algumas pessoas acabam por despertar, mesmo sem querer. Do sexo e do afeto, se faz um inesperado rebaixamento de nós mesmos – uma feiura. A solidão pode então surpreender e ser escolha bem-vinda, uma liberdade de solares cavalgadas.
De um centauro macho
Ele acaricia aquele corpo nu. Dela. Tão familiar. Nas mãos, o tamanho e o formato dos seios. A largura do quadril. Na memória, o jeito como entreabria a boca. O desejo em um franzir. Como se doesse. Um sofrimento bom, um amansamen…

(L)Eda e o cisne....

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De uma conversa com um amigo querido.... sobre sedução, chá e cisnes... E um deus sob as penas.

De um centauro fêmea - Jardim das delícias, coluna site Revista da Cultura

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A intimidade está rara, difícil. Em algum momento, nos tornamos peças de um inadmissível Lego onde somos objetos e agentes de uma procura por encaixes perfeitos. Nenhum ajuste. Tudo consumo imediato, prêt-à-porter, ready-to-use, plug-and-play. Será que estamos nos transformando em criaturas híbridas? Se não gregas e míticas, de que tipo?... Quero crer que afeto e respeito ainda possam surpreendentemente brotar com a ousadia e força de “riderless horses now free from the cart” (música de Dry the river, ao final de Zaytoun). Que persistam inesperados olhares, tão significativos como aqueles entre o soldado israelense Yoni e Fahed, o garoto palestino com a camisa do Brasil (ainda, Zaytoun), a delicadeza de Fill the void - aparentada daquela melancolia meridional, de Onetti e seu título que me é tão caro: Tão triste como ela. De um centauro fêmeaUm vazio. A mulher serve como preenchimento. Ela é assim ocupação. Do lugar de fêmea, esposa, mãe. Também utensílio, objeto e abstração. De uma po…

Mão de mar - Jardim das delícias, coluna site Revista da Cultura

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A ideia de um suicídio no mar me fascina. Talvez por algo de entrega amorosa, um mergulho onde o objeto de desejo se deixa ser tragado com volúpia. Esta outra morte aquática pode se dar em silencioso desespero, mas sem as duras pedras de Virginia Woolf nos bolsos. Bastaria o nosso próprio pesar, aquele que nos põe de joelhos como a figura de Camille Claudel diante da lareira, sem calor nem aconchego. E com tanta mágoa no mundo, como não querer ser a criança roubada pela fada do poema de Yeats? Se a alma se ressente da falta de gentileza em meio a tantos desencontros, desconsolos... Algum ínfimo alento é possível em uma blueberry pie de uma boulangerie nos Jardins - claro que sem Jude Law no balcão, mas com Cassandra Wilson nos fones de ouvido, revisitando a Harvest moon de Neil Young. Um pocket-nanoconsolo, ali, pertinho da Paulista. Mão de marA mulher, ali, de frente para o mar. A angústia silenciada. Por enquanto. Por causa dele, Netuno de longa cabeleira e barba. Se um dia suicida, …