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Farewell - Jardim das delícias - site Revista da Cultura

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Farewellé o último passeio pelo Jardim das delícias, coluna semanal do site da Revista da Cultura. Espero que em seus mais de 30 percursos, as palavras possam ter cumprido seu intuito de, mais do que delícias, incitar alguma perturbação, uma inquietude desejável.
Encerro este ciclo deixando minha gratidão pela oportunidade e espaço, mas mais pela confiança e cumplicidade da primorosa e dedicada equipe da Revista da Cultura, pelo tempo e acolhida dos leitores e amigos para não somente compartilhar, mas cair comigo neste buraco de Alice de personagens e paisagens.
O fecho é aqui porta entreaberta de outro caminho: um fragmento de um texto ainda incompleto, em escritura.


A filha da mãe - Jardim das delícias - site Revista da Cultura

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Tinha acabado de escrever O filho do pai quando vi Beyond, filme da sueca Pernilla August, intérprete da mãe de Anakin Skywalker, mas principalmente atriz de Bergman e Bille August. De coragem e força, o filme inspira aqui outro atravessamento por um universo maculado por adição e violência.

O que é isso que esta filha sente por essa mãe.
O que é isso que esta mulher sente por essa outra mulher.
A filha da mãe
Três meses sem tintura. Mais. As raízes brancas e crescidas. Feio. Mais, se a mãe insistia nesse castanho. Escuro demais. A pele clara. Bonita. Ainda. Apesar da papada, das rugas. A mãe é uma mulher estragada. A filha lamenta. Nem sempre foi assim. Não. Agora. A mãe adormecida. O ressoar baixinho. O bip do monitoramento cardíaco. Um murmúrio de enfermeiros no corredor. A filha exausta. Ali, ao lado do leito. Os olhos pesam. Suspira. Adormece. É. A mãe ruiva. Vermelho fogo. A cabeleira recende a tinta. Ela entra em casa e sorri. Triunfal. A mãe é uma estrela de cinema. Rita, Debora…

Casa ocupada - Jardim das delícias - site Revista da Cultura

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A casa testemunha nossas histórias, seja a rotina dos dias meio parecidos, sejam os momentos de desamparo e desespero, os de aconchego e entrega amorosa. Quem dera se, ao nos mudarmos, pudéssemos encontrar e deixar nas casas um rastro de nossos afetos, um morno acolhimento, outro tipo de inestimável benfeitoria.

Casa vazia, do coreano Kim Ki-Duk e como trilha, Photograph, de Arcade Fire, da trilha de Ela, que tem me tomado inofensiva, mas obsessivamente...
Casa ocupada
O apartamento vazio. O homem chega antes. É ele então quem abre a porta. Para ela. Ele, de bermuda, sem camisa. Mesmo sem fazer tanto calor. Aquela pele morena. Meu amor. Ela sorri. Ele também. Beijam-se. Com apreensão. Sem muito gosto. A mulher hesita. Talvez devesse ir embora.
Ainda neste primeiro minuto.
Os dois. Juntos, após muito tempo. Juntos, só por esta noite. E neste lugar. Apartamento emprestado e desocupado. Vestígios de uma família que se mudou. A do irmão dele. Pinturas infantis pelas paredes. Caixas de livros…

O filho do pai - Jardim das delícias - site Revista da Cultura

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Algumas heranças não entram em inventário, não são alvo de disputa. Difícil precisar se poderiam ser também escolhas, eleições em resposta à rejeição e ao abandono, reação inconsciente diante de um incompreensível e inaceitável desamor.
Um outro adicto na interpretação memorável de Jack Lemmon em “The days of wine and roses”, de Blake Edwards, com música de Henry Mancini para a letra de Johnny Mercer:
“The days of wine and roses laugh and run away like a child at play Through a meadow land toward a closing door A door marked ‘nevermore’ that wasn't there before”
O filho do pai
Batem na porta. É madrugada. A mulher sabe. Ali. Sentada no sofá. É ele. Sabia e esperava. Mas ela não abre. De medo. Da violência. A boca seca. As mãos frias. Ela, ali. Quieta, sentada na escuridão. No breu desses seus dias. Dessas noites tão longas. De pressão oscilando. Alta de preocupação. Baixa de vontade de morrer. É. Ela não abre para não ver aqueles olhos. Azuis como os dela. Herança para esse seu filho. T…

Nela. Na lua. - Jardim das delícias - site Revista da Cultura

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Uma mulher linda e tão divertida. Um homem quase perfeito não fosse a feiura. Ela se apaixona. Ele, intelectual e blasé, simplesmente não a quer. Acontece. Rejeição feita humilhação. Se ela se sente inferior, incapaz de ser par – inigualável, irresistível. Não. E então da gravidade da dor, ela inventa uma falta de gravidade: uma amorosa flutuação - lunar.  

Uma mulher linda e tão divertida. Um homem quase perfeito não fosse a feiura. Ela se apaixona. Ele, intelectual e blasé, simplesmente não a quer. Acontece. Rejeição feita humilhação. Se ela se sente inferior, incapaz de ser par – inigualável, irresistível. Não. E então da gravidade da dor, ela inventa uma falta de gravidade: uma amorosa flutuação - lunar.

Moon song, de Karen O e Spike Jonze, na voz rouca de Scarlett Johansson, da trilha de Ela - minha mais recente paixão fílmica...

Nela. Na lua. Para I.
A mulher troca de roupa enquanto conversa. Com ele. Homem ausente. Agora, só lembrança e imaginação. É. Mas mesmo assim, ela conta como…

Um filho de Allah - Jardim das delícias - site Revista da Cultura

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Cada um recebe um “bauzinho” na vida, uma herança familiar e social. Raro ter fortuna. Obrigatório vir com valores e padrões de comportamento, de pensamento, de vida. Frequente não querermos tudo. Mas para jogar fora, é preciso fazer inventário... E, como outros, este também pode demorar. Anos, décadas. E de repente, podemos nos perceber “vestindo” valores dos pais, “calçando” expectativas da sociedade. Ensemble que pode não se fazer em nós sinônimo de realização, de contentamento...

Um “bauzinho” em forma de uma tradicional bakery dinamarquesa: Em família, filme dePernille Fischer Christensen.

Allah-la-ô, marchinha de Haroldo Lobo e Nássara, na versão gentil de Maria Bethânia.
Um filho de Allah Na rua, uma família de homem, mulher e o filho ainda menino. Na rua, muitos outros. Quase crianças. Embriagados de riso e cerveja. Três por dez. No isopor carregado no ombro, empurrado no carrinho. Um até aceita cartão. O homem abre uma latinha e olha ao redor. Garotas de shorts e havaianas. Jove…

Uma sereia holandesa - Jardim das delícias - site Revista da Cultura

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Ela nos atende com um sorriso de gentileza. E nós, distraídos, só sorrisos. Se faz tanto sol, se o mar está tão lindo. Nada para pensar a não ser na fome de ceviche ou de lulas, na dúvida entre vinho branco ou caipirinha de uma boa cachaça local. Ali, uma sereia de olhos líquidos. Menos mar, mais lágrimas. Ninguém presta atenção. Ela então esconde a cauda, cala os cânticos e oferece o cardápio. Sugere robalo, sorri.
Para além de Vermeer e seu brinco de pérolas, seres muito ou pouco imaginários:  “The Land of Heart's Desire” peça de W. B. Yeats e “Song to the Moon”, da ópera “Rusalka”, de A. Dvořák.
Uma sereia holandesa

Um dia ela chega também voando. De uma terra de luzes e sombras. Ela, muito hippie e nada mítica. Loira, linda e de olhos transparentes. De olhar e alma aquosos. Mais, no susto deste sol tão explícito. Sem meios-tons. Como os homens. Tanto impulso e vontade. Também aquele. Magro, de olhos grandes e castanhos. Breu para perder e desnortear. A vida e o futuro ao dizer, a…

Lágrimas de poça - Jardim das delícias - site Revista da Cultura

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A escrita nem sempre é autobiográfica, mas é fatalmente atravessada, perpassada pela vida, se alguma permeabilidade é mesmo inevitável. Mas no empenho semanal deste meu “Jardim das delícias” por vezes me pergunto de onde vêm esses personagens que podem causar estranhamento, um incômodo amargor na alma. Sem resposta, assumo que escrever tenha bem pouco de conforto, mais de tentativa de apaziguamento - “olé” de toureiro frente uma besta desafiadora e incansável. De um golpe, sei que por vezes sou lançada ao ar, finalmente atingida. Minha vez de ser atravessada, revide da escritura. 


“Memorial”, de Michael Nyman, da trilha de “O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante”
Lágrimas de poça
Na casa. Um pai morto e fantasmático. Um padrasto violento sem rosto nem voz. Uma mãe passiva de muita exaustão. Um menino inocente e assustado. Uma menina de infância violada, mas que vê e ouve tudo: vivos, morto. Menina criança velha, capaz de agir. Matar.
Família outra, escrita. Cria da Olivetti portát…

Calvin - Jardim das delícias - site Revista da Cultura

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Virtuais e expressos podem ainda assim constituir amores? Se há confiança e confidências. Se a cumplicidade se instala mesmo que na impossibilidade. Do calor, do cheiro e sabor dos corpos. Da textura da pele, do entreabrir a boca e fechar os olhos. Pela internet, um erotismo despejado nos ouvidos, teclado na urgência e no susto.
Para ‘contaminar’ a leitura das palavras: as cores e a fotografia de “Amores expressos”, de Wong Kar-Wai, a voz de Cassandra Wilson em “Little warm death”.
“But now I feel you near me See you much more clearly I can hardly wait to Feel you moving through my world oh my world Isn’t deep without you”
Calvin

Máxima prevista de 35⁰C. Sensação térmica de 38⁰C. A cidade imersa em calor e caos. Os ânimos das pessoas se acirram. As vontades amolecem. A mulher está em casa. A pele já suada. Mesmo se acaba de tomar banho. Frio, de sal grosso. Quer a pele lisa e limpa. Quer a alma leve e livre. De pensamentos obsessivos. De sombras em rasantes de medo e angústia. Mesmo que não d…

Virginia - Jardim das delícias - site Revista da Cultura

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Diante de mortes recentes, disse para um amigo que, se pudesse, doaria anos meus. Tenho a sensação de que serão muitos. Talvez demais - uma ameaça. Meu viver me parece extenso, distendido. Se há muito recuo e acovardamento por aí. Preferia uma vida mais compacta, mais cheia de som e fúria. Sim. E aí, na conta final, uns anos a menos. A mais. Para que um cineasta fizesse ainda um filme. Para que um ator pudesse realizar mais de seus mergulhos - de pescador de águas profundas e espécimes raros. Não. Doar anos não é regra do jogo. Restam então saudades. De filmes não realizados. De pessoas que partiram. De dias não vividos. De sons. De outras, boas fúrias.

Do ator, a alma em uma animação, das minhas mais acalentadas: “Mary and Max”, de Adam Elliot. Do cineasta, compaixão e sua incomparável empatia. Virginia
O pé pesa sobre o acelerador. O salto alto do sapato favorito. Vermelho. O carro faz a curva. E se não fizesse. O muro. A pista contrária. Uma árvore, um poste. 

Outro dia.

O passo sobr…

Uma mulher menina brava - Jardim das delícias - site Revista da Cultura

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A raiva é a mais patente das máscaras da fragilidade. Ainda que se alvorace de muito rugido e cara feia. Sem vacina nem baba espumante, é moléstia que, em vez de somente causar, germina da própria dor. De desespero e desamor, a raiva se posta à frente como escudo. Como se pudesse proteger, anestesiar. Empreitada fadada ao fracasso. Ainda que em meio à fantasia de cavaleiro andante. Na ilusão de moinhos de vento. Sem nobres ideais nem poesia. Só esforço por surdez, mudez. Aquela dor. Esforço tão inglório.

Do contemporâneo de Cervantes, John Downland - “Come again”, na versão de Sting e do alaudista Edin Karamazov:  
“Come again! that I may cease to mourn
Through thy unkind disdain;
For now left and forlorn
I sit, I sigh, I weep, I faint, I die
In deadly pain and endless misery.”
Uma mulher menina brava
Ainda menina, aprende. Aquela braveza. A cara de má. O olhar duro. A raiva em bomba, explosiva. E parece mesmo funcionar. Se meninos e meninas correm. Em fuga. Ela, meio heroína meio monstra…

mão seca de mãe - Jardim das delícias - site Revista da Cultura

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Meu gato dá cabeçadas, mordisca meu braço pedindo cafuné. Em momentos de maior empolgação, morde como se eu fosse sua fêmea. Carinho conquistado então à custa de alguma dor e marcas de dentes pontiagudos. Entre as pessoas, os gestos de demanda por afeto são infinitamente mais sutis e variados – por vezes, também dolorosos. Na carne de dentro, cicatrizes que têm algo de pinturas rupestres, almejando contar uma história, fazer perdurar emoções e sentidos que também nos constituem e que, de alguma forma, também podem nos definir.

Angustiados gestos de afeto dos meus últimos dias: a mãe de “A salvo de nada”, livro de Olivier Adam, e “Pais e filhos”, de Hirokazu Kore-Eda.
mão seca de mãe
A mulher olha para suas mãos. Uma velhice. Só das mãos. Rugas e manchas, os dedos nodosos. Como podia isso. Com a sua idade. Se nem tanto trabalho. O marido e as crianças. A casa. O quintal sem plantas nem caca de cachorro. Nada para lanhar assim. As mãos, aquele couro. Envelhecendo e encarquilhando. Antes de…

Outras Índias - Jardim das delícias - site Revista da Cultura

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Kenneth Branagh em um Shakespeare ao sol da Toscana para afugentar meus moods melancólicos, personagens sempre tão angustiados e desencontrados... Porque o ano ainda só começa e que, apesar da incerteza do porvir, seja sempre possível “hey nonny, nonny”... Ainda que a resposta ao “Vem?....”, convite do afeto, não seja um “sim” em gestos ou palavras, em um tímido sorriso de largo contentamento...
“Sigh no more, ladies, sigh no more.     Men were deceivers ever, One foot in sea, and one on shore,     To one thing constant never. Then sigh not so, but let them go,     And be you blithe and bonny, Converting all your sounds of woe     Into hey nonny, nonny.”
"Sigh no more", de “Muito barulho por nada”, de William Shakespeare
Outras Índias
Apesar do medo, ela sorri. Vai deixar acontecer. Ele, de novo em sua vida. Ele, o afeto. Mesmo se já houve tanto. Antes. Gestos bruscos. Palavras ríspidas. Cálculos e latitudes equivocadas em navegações colombinas. Súbito, todo um continente no meio do ca…

Bai. Kyllä. Ndiyo. Igen. Da. Ja. Evet. Sì. Si. Sim. - Jardim das delícias - Revista da Cultura

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Um “sim” ao convite do afeto demanda coragem ao nos escancarar um abismo de vulnerabilidade, a assustadora vertigem da incerteza. Mais do que muitas ou poucas letras, este “sim” pode prescindir de todas e se fazer um diminuto sorriso, um corar das faces, um olhar fugidio.
Que o novo ano, ciclo que se inicia, traga convites legítimos para que possamos dizer, amorosamente, “sim”...
Como trilha, nada de árias de morte e despedida; mais a atmosfera, do que as palavras de “Saturday morning”, de Rachael Yamagata.
Bai. Kyllä. Ndiyo. Igen. Da. Ja. Evet. Sì. Si. Sim.
Um bip. Uma mensagem. No visor do celular, só um número. Dele. Nome apagado da agenda. Gesto invocativo de outro. Apagá-lo, aquele homem. Dali, do dentro dela. Não consegue. Claro. Agora. Esse frio na barriga. Esse tremor. Tonta... Bastou um punhado de palavras. Um “feliz ano novo” qualquer. Ela logo tomada por clichês amorosos do séc. XIX. Sem saber. Se amor. Se mais cisma ou encosto. Faíscas de Ogum cutucando Iansã. Não. O que voc…

Um homem-bomba - Jardim das delícias, coluna site Revista da Cultura

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Primeiro do ano, o dia pode ainda ser de pedidos. Um, ao menos. Deste homem, campo minado. Um tipo diferente de homem-bomba. Em seu âmago, um tique-taque, constante ameaça de autodestruição, aniquilação. Se o pedido é feito a um possível Deus, há algo de “Hallelujah” - pouco de júbilo ou louvor, mais do grave Leonard Cohen:
“Maybe there’s a God above
But all I’ve ever learned from love
Was how to shoot at someone who outdrew you”
Um homem-bomba
Café com um pingo de leite. Leite com um pingo de café. No balcão, a atendente sorri. Opostos os pedidos deste casal. Opostos, sim. Casal, não. As pessoas olham, outros homens. Ela, exótica. Incitando desejos proibitivos, estéreis. Ele ali, ao lado dela. Macho que, apesar de poder, não a toca. Sem amor, não a quer. Não mais. Sem amor, o sexo é deprimente. Não para ela. Sem amor, o sexo é seguro. Enfim. Sem ameaça de dragagem inclemente, de arrasto irrefutável. Não.