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Mostrando postagens de 2013

Uma outra, de ouro - Jardim das delícias, coluna site Revista da Cultura

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Em “Fim de Caso”, de Neil Jordan, os personagens de um triângulo amoroso se molham muito - de chuva e de lágrimas. Por aqui, já é verão, mas não chove. Nada de temporais de fim de tarde, de céus ameaçadores. Não. No texto, o Natal é seco, de neve de mentirinha, de afeto de verdade. Sem chuva nem lágrimas, um encontro de ex-amantes. Ficção multiplicada. Como se isso pudesse existir: um ex-amor.    
“Love doesn’t end”, do meu favorito, Michael Nyman.
Uma outra, de ouro

Ela chega na hora. Ele chega adiantado. Como sempre. Desta vez, espera na pequena mesa próxima à porta. Para não deixar de vê-la. Como se pudesse. Distraído pelo jazz ao fundo. Ela chega, eles se abraçam. Finalmente. Após dias sem conta. A mulher quer ficar. Ali. Se gosta da temperatura daquele corpo. Se gosta do temperamento daquele homem. Que esquecesse. O vácuo onde se vira deixada. Antes. Ignorante, ignorada. A outra.
Mudam de mesa. Ela, de frente para um espelho. Mas os olhos querem se ocupar só dele, necessidade amanh…

Minotauro na arena - Jardim das delícias, coluna site Revista da Cultura

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O texto atende ao pedido de um casal de amigos queridos. Atentei para que houvesse sensibilidade e respeito, verdade e empatia. Mas tal cuidado revela muito também. De uma imunidade sabida impossível em relação aos preconceitos e estereótipos que envolvem o desejo e o afeto entre pessoas do mesmo gênero. Ainda assim, aqui, o texto.

Díspares sugestões de trilhas: Manuel de Falla e seu “El amor brujo” e “Temptation”, do Moby:
“Tonight I think I walk alone to find my soul as I go home. Oh, it’s the last time, it’s the last time.”
Minotauro na arena
O homem na arena. Sem esperar por outro touro, mas por novilhos de carne macia. Na idade de quem pode e quer tudo da vida. Uma potência. Outra, igualmente bem-vinda. E então em meio ao suor, as carnes misturadas. No olhar do vitelo, uma mistura de surpresa e descoberta. Diante do touro, que sabe muito, tanto. Procurar, fazer, dar. Prazer, sensações. Em meio ao perigo. Algum. Pouco.

Um homem gentil - Jardim das delícias, coluna site Revista da Cultura

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Aqui, um homem gentil, mais de alma. Gentileza que por vezes é tomada equivocadamente por fraqueza. Em um mundo onde os papeis se tornaram indefinidos, algo de príncipe talvez ainda se espere de um homem. Que seja forte e impositivo, ainda que tombe, infeliz, do alto de seu cavalo branco. Mesmo que não seja uma princesa, esta mulher. Não. Nada de Diana e Catherine, das princesas da Disney com jeito de Barbie. Não.
O texto é uma variação de Wholeheartedly mas em lugar de uma mulher como protagonista, agora um homem. O que muda? Por quê? Penso em Martin Donovan de “Confiança”, de Hal Hartley, que, apesar da aparência tão pacífica, carrega consigo uma granada no bolso. Just in case...
Um homem gentil
Ele vaga pelo supermercado. Indeciso e irritado pela dúvida. Aspargos frescos podem ser pretensiosos. Caro, o queijo de cabra. Banais, as abobrinhas italianas. Sensato seria confiar. Se sempre soube inventar mesmo a partir de sobras na geladeira. Bruschettas de entrada. Pão, tomate e parmesão t…

Wholeheartedly - Jardim das delícias, coluna site Revista da Cultura

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O afeto pode nos expor em arena, vulneráveis. Mas talvez, em vez de fraqueza, a vulnerabilidade do amar seja uma admirável coragem - de quem sobrevive ao fracasso, incontornável risco do almejar o enlevo. Que o desencontro e a rejeição sejam então peles a ser trocadas – necessária renovação, obrigatório desapego.  Como trilha, do islandês Ólafur Arnalds, “Old skin”:
“Treading lightly, tightly shedding its old skin Leaving trails of night for light to bring chagrin
While air grows thin”
Wholeheartedly
Ela vaga pelo supermercado. Indecisa. E irritada por tanta dúvida. Aspargos frescos, abobrinhas italianas, um queijo de cabra de preço exorbitante. Sensato seria confiar. Se ela sempre soube inventar mesmo que a partir de sobras na geladeira. Com afeto e graça, uma taça de vinho, a mesa posta na varanda com uma florzinha azul quase roxa, colhida ali mesmo, da jardineira. Mas súbito, ela se vê insegura. Se é para ele que vai cozinhar, anacrônico teste de seus esperados dotes. Ela, uma mulherz…

Outro supermercado - Jardim das delícias, coluna site Revista da Cultura

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Blade Runner” é adaptação de uma obra de Philip K. Dick cujo título original é “Do Androids Dream of Electric Sheep?”. Adoro esse título de lógica tão singular, buraco de Alice para um universo assustador: por que androides sonhariam com ovelhas elétricas? Por que alguém faria uma pergunta como essa? Mas, por outro lado, quais as perguntas que Philip K. Dick faria a partir de nós, seres humanos no Facebook, Twitter, LinkedIn... Tinder? Certamente em noites insones não contamos carneiros elétricos saltando cercas de vigilância à beira de serem eletrocutados. E com o que sonhamos então? Em demasia com o consumo e seus objetos. Mas se para além de clientes, também nos tornamos mercadorias, talvez mais do que sonhos, seja o caso de cogitarmos inauditos pesadelos...
Outro supermercado
A mulher desce da prateleira. Finalmente. Daquela que arranjara para si. Ali, à altura do olhar. Nos últimos tempos, os olhos almejados pertenciam a ele, aquele homem. Nem bonito nem feio, comum. Um homem por…

À beira do Etna - Jardim das delícias, coluna site Revista da Cultura

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Na Sicília, o Etna de novo em erupção. Desta vez, menos furioso, sem viscosos rios de magma nem evacuação de emergência. Não só vulcões, pessoas também podem explodir e jorrar lava, bufar colunas de cinzas e vapores sulfurosos. Ou não. Se extintas no lado de dentro. Não! Que haja um interior de vida incandescente – ainda que passível de descontrole, destruição, queimaduras...

Amores de gente viva que perpassam o texto: “Minuto de silêncio”, de Siegfried Lenz e “Um homem apaixonado”, de Martin Walser.
Love is a warm bearing wave”… (Será?)

À beira do Etna

Ela lê. Os olhos marejam embaçando a visão, impedindo a leitura. Há tempos isso não acontecia. O choro causado pelo empréstimo e ocupação da vida de outra pessoa em palavras impressas. Neste livro, um jovem e seu primeiro amor, uma professora mais velha. Lições jamais esquecidas e se interrompidas abruptamente pela morte, desvio romântico e tão inesperado. Um livro da velhice de um autor.

Uivo mudo - Jardim das delícias, coluna site Revista da Cultura

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A consciência produz uma fissura no homem, uma angústia existencial que não há em nenhuma outra criatura. O estar consigo e no mundo longe de ser apaziguado, é povoado por um imaginário de monstros e criaturas híbridas, cindidas: Lobisomem, Frankenstein, Jekyll e Hyde, Drácula, e ainda outros tantos heróis – também químicos, insetos mutantes. 


Aqui, os homens são um pouco bichos, modificados por uma mentira de mãe, tão comumente alardeada na infância: Eu amo vocês igual. Da inverdade, surge uma rivalidade identitária, tão primordial quanto o próprio afeto. Uma luta inglória.   
Uivo mudo
A mãe ali, deitada na larga cama. Bela adormecida, apesar do mal e seus medicamentos. Os filhos esperam. Em silêncio. O quê. Nenhum rosnar, nenhum suspiro. Só a monitoração de seu pulsar, regular e constante.
Ainda.
O homem-urso disfarça, mas admira o irmão, o homem-lobo. Ainda a mesma atração e repulsa por aquela sua altivez, os olhos de breu, a ferocidade que, bem sabe, se destilava em palavras letais …

Pequena morte - Jardim das delícias, coluna site Revista da Cultura

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Sinto que morri muitas vezes. Por gestos e palavras alheias. Mortes ínfimas e agudas, de uma contundência feroz. Em lugar de um cadáver, resto sobrevivente. Por aí, sorrindo e disfarçando o sangue e as lágrimas, as carnes laceradas. Mas há outras mortes que podem se inscrever inevitavelmente no corpo. Ainda no cedo dos nossos tempos.
Algumas lullabies para embalar sobreviventes: Dean Martin cantando Brahms, Creed, Tom Waits e Norah Jones, além da “Birdland” em versões de Stan Getz e Sarah Vaughan.
A minha favorita do momento é Leonard Cohen: “If your heart is torn, I don’t wonder why. If the night is long, here’s my lullaby”.
Pequena morte
A mãe olha. Aquele montinho de carnes e dobras fabricado dentro dela. Um milagre. Ela olha e espera. Não outro milagre, mas algo tão natural: amor. Procura, vasculha dentro de si. Não acha. Deve estar escondido, daqui a pouco aparece, claro, é instinto.
Os dias passam.
Para além do desconforto, um vácuo. Ali. Em lugar de calor e ternura, nada. Nenhum…

Alforrias - Jardim das delícias, coluna site Revista da Cultura

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Um amigo diz ter preguiça de “mulheres intensas”... Talvez mais do que preguiça, haja temor diante da possibilidade de dominação, devoração ou vingança por parte mulheres não só intensas, mas ameaçadoras como a “Lady Vingança”, do violentíssimo Chan-wook Park, ou a Noiva de Uma Thurman e Tarantino.
Apesar de nossa descartabilidade contemporânea que abarca coisas e pessoas, orgulho e vaidade ainda nos atravessam – de forma contundente quando somos mais objeto do que agente. Pensando na liquidez de Bauman, talvez as pessoas possam constituir nascentes não só de águas cristalinas, mas também de sombrios e cáusticos desejos em velozes e violentas corredeiras.
Alforrias
Ele sorri. Sozinho, olhando-se no espelho. De contentamento, mais de liberdade. Finalmente.  Alforriado do desejo por aquela mulher. Tão jovem. Ela e seus longos cabelos perfumados. A pele macia que cobria suas carnes ainda tão firmes. A boca brilhante de sabor artificial de cereja. Ele ri. A jovem atirada no lixo privativo.

Dela, bicho da casa - Jardim das delícias, coluna site Revista da Cultura

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Meus temas pouco têm de rosas apesar de espinhosos... São palavras encadeadas em gesto, tentativa de abarcar inquietações, responder perguntas insistentes em ecoar nos vazios do lado de dentro.

Há dias ouvi uma frase que, em outro tipo de insistência, permaneceu. Saída de uma boca pequena de lábios finos. Palavras que revelam fronteiras nebulosas, de uma sexualidade de dever e obediência, de violência.  Mulher real, sem se saber aparentada da jovem e moderna Umay de "When we leave", de Feo Aladag, da distante e muda Ada McGrath de “O Piano”,  com música de Michael Nyman, por quem sou fatalmente apaixonada....

Dela, bicho da casa
Deve ser pior ser violentada por alguém que você não conhece.
Foi o que disse, assim. As palavras escapando de sua boca sem pedir permissão nem passar por inspeção. Quando se dá conta, elas já perambulam pelos ouvidos alheios. Ela então enrubesce, abaixa o olhar. De vergonha e verdade. Se pudesse, chamava as palavras de volta.
Ei, onde vocês pensam que …

Fome de cisne - Jardim das delícias, coluna site Revista da Cultura

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Cisnes, mesmo negros, jamais serão sinistros como os corvos de Hitchcock ou aquele, mais metafísico, de Poe. Eu os imagino pouco inteligentes, se naquela pequena cabeça o cérebro não pode ser muito maior do que uma noz-borboleta. Não. Cisnes não sofrem de abandono ou angústia. Nenhuma crise identitária ou evolutiva se acaso não nasceu nem pato nem feio. Cisne sem espelho. Com voo. E num dia, inspiração de Saint-Saëns e Tchaikovsky. No outro, disfarce de Zeus para seduzir Leda. Outros voos. 

Fome de cisne
Ele nunca soube. Um dia, ele também cisne. Para ela. Se cisne na vida. Se patinho no afeto. Ao recuar assustado. Diante dela, após aquele chá do primeiro encontro. Ele teme. Aquilo, assim. Para ela, tão fácil. O amor. Um, também esse.
Não. Não chegou a dizer. Ainda bem.  
Agora, ela imune, ali, diante dele. Quase. Se ameaça evaporar naquele abraço. Longo demais. Na pressão da mão dele sobre seu braço. A mulher disfarça. Sabe. Ele a quer. Agarrar, sequestrar, tomá-la para si. Só um pouco.…

Um cheiro morno de felicidade - Jardim das delícias, coluna site Revista da Cultura

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Zécarlos Machado em "Brincando de sanduíche", de Alan Bennett (foto: divulgação)

Gentileza pode gerar gentileza, mas por trás da aparência, pode haver algo de inesperado e sombrio, algo por macular, ocultar, negar – sem intenção de um mal, antes movido por amor, busca por alguma felicidade.
Texto em homenagem a Zécarlos Machado, amigo querido, ator não só talentoso, mas destemido diante das sombras de um personagem como o do monólogo de Alan Bennett, aparentado de Bill Maplewood de “Felicidade”, de Todd Solondz, e deste meu homem gentil.  
Um cheiro morno de felicidade
Um homem gentil. Assim diziam dele. Acostumou. Também tímido, de olhos baixos. Chamar atenção para quê. Ele então sorri, manso. Às vezes, em um inofensivo descontrole, ri aos borbotões. Não agora, quando olha para a menina. Ela, sim, ri. Aquela mãozinha em seu joelho. Ele sem tocar, mas sabendo da pele. Tão macia. Não somente das mãozinhas, o rosto e a barriguinha. As dobras, tão delicadas. Ainda puras.
Não.
Não d…

Rugas de plástico, rugas de carne - Jardim das delícias, coluna site Revista da Cultura

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Esta história tem uma reborn baby doll, uma dessas bonecas de assustador realismo. Neste parágrafo aqui, há algo de oráculo, de porvir desta família do texto. Talvez essa menina morra como em “A liberdade é azul”, em “21 gramas” ou no delicado “Encontro às cegas”, de Stanley Tucci. Talvez só restará à mãe uma boneca e a dor irreparável da perda. O texto abaixo é então um momento anterior. De algo. Talvez de uma tediosa continuidade. Ou não.

Um alerta: não há imunidade absoluta. Nunca. Para ninguém.
Rugas de plástico, rugas de carne
Domingo à noite no aeroporto. Ainda é cedo. O marido e a filha no balcão. A menina se estica sobre a estufa em dúvida entre uma coxinha e uma empada de palmito. A mulher espera na mesa e, distraída, sem se dar conta, acaricia a bochecha dessa sua neta de plástico.
Ahn?
Rapidamente tira a mão da boneca, um bebê de cara feia e amarrotada. Como sua própria filha ao nascer. Claro que então a mulher ficou feliz, mas também assustada. A menina era um bolinho de carne…

Un bel dì - Jardim das delícias, coluna site Revista da Cultura

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Adoro Puccini e já quis fazer uma versão de Butterfly, essa mulher de entrega, de espera vã. Gosto particularmente da gravação de Maria Callas talvez por imaginá-la Cio-Cio-San, deixando Onassis seguir para os braços de Jackie Kennedy. Nada Cinderela. Mas às vezes não é preciso uma rival. Basta um vazio, uma angústia que se escancare em cânion. Do lado de dentro, sem aviso. Faz parte da natureza humana. Cânions podem ser muito silenciosos, mas também verborrágicos. Em Thomas Bernhard, eles se abriam aos jorros, sem descanso nem parágrafos. O autor austríaco é a minha paixão dos últimos tempos - fadada a uma saudável irrealidade. Nada Cinderela, mas não Butterfly.
Un bel dì
O amigo telefona. Não poderá ir. Sente muito. Verdade parcial se não sente tanto assim. Ela também não. Um pouco chateada, mais por ir sozinha. De noite, ao centro, à ópera. Vai. Lá, venderia seu par de ingressos, compraria um. Só. Ela, avulsa. Foi o que fez. Logo aparecem dois estrangeiros. Um deles fala português. …

Chá com uma jovem loba - Jardim das delícias, coluna site Revista da Cultura

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Cenas e personagens podem persistir, demandar sobrevivência. Gosto de imaginar alguns andando por aí, perigosamente à solta. Aqui, a Lolita de “Chá com um cisne” encontra novamente seu Humbert Humbert  – talvez após um éclair e Lucien Freud, mas sempre atrasada e descabelada.
Mais do que pela personagem, escrevi pensando se pode haver no enamoramento (à Javier Marías), um instante decisivo (à Cartier-Bresson). De um simples olhar, revela-se algo de fatídico: um inescapável reconhecimento de afinidade - tão intenso e doloroso em “Stockholm Östra”, filme com Mikael Persbrandt, ator sueco que eu adoro.
Chá com uma jovem loba
Naquele instante. Uma eleição. Sem se dar conta. A mulher olha para ele.
Ela o quer.
Ele, tão distraído. Ela mesma, hipnotizada. Dele, enamorada. Mais do que das palavras, daquele timbre. Para sentir saudades. Mais se sussurrasse obscenidades. Mais se inimagináveis naquela boca. Dele. Larga e grave.
Ela o quer.
E faz do homem, alvo. Se é dia da caça. De se fazer caçador…

De um centauro macho - Jardim das delícias, coluna site Revista da Cultura

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Um encontro improvável: Robert Redford e Marina Abramovic. Na foto, vestidos com jalecos e protetores de ouvido brancos. Mas qual Redford é este? O meu favorito é Jeremiah Johnson do filme de Sydney Pollack. Solidão e dor em meio a montanhas e neve. Quando vi a foto, ouvia o Morricone de “1900”, com De Niro e Depardieu. Todos ainda tão jovens e bonitos... Mais invulgar, a beleza nos homens pode se tornar por demais protagonista, um fardo desconfortável. Incômodo de outra natureza, pode surgir daquilo de nós que algumas pessoas acabam por despertar, mesmo sem querer. Do sexo e do afeto, se faz um inesperado rebaixamento de nós mesmos – uma feiura. A solidão pode então surpreender e ser escolha bem-vinda, uma liberdade de solares cavalgadas.
De um centauro macho
Ele acaricia aquele corpo nu. Dela. Tão familiar. Nas mãos, o tamanho e o formato dos seios. A largura do quadril. Na memória, o jeito como entreabria a boca. O desejo em um franzir. Como se doesse. Um sofrimento bom, um amansamen…

(L)Eda e o cisne....

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De uma conversa com um amigo querido.... sobre sedução, chá e cisnes... E um deus sob as penas.

De um centauro fêmea - Jardim das delícias, coluna site Revista da Cultura

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A intimidade está rara, difícil. Em algum momento, nos tornamos peças de um inadmissível Lego onde somos objetos e agentes de uma procura por encaixes perfeitos. Nenhum ajuste. Tudo consumo imediato, prêt-à-porter, ready-to-use, plug-and-play. Será que estamos nos transformando em criaturas híbridas? Se não gregas e míticas, de que tipo?... Quero crer que afeto e respeito ainda possam surpreendentemente brotar com a ousadia e força de “riderless horses now free from the cart” (música de Dry the river, ao final de Zaytoun). Que persistam inesperados olhares, tão significativos como aqueles entre o soldado israelense Yoni e Fahed, o garoto palestino com a camisa do Brasil (ainda, Zaytoun), a delicadeza de Fill the void - aparentada daquela melancolia meridional, de Onetti e seu título que me é tão caro: Tão triste como ela. De um centauro fêmeaUm vazio. A mulher serve como preenchimento. Ela é assim ocupação. Do lugar de fêmea, esposa, mãe. Também utensílio, objeto e abstração. De uma po…

Mão de mar - Jardim das delícias, coluna site Revista da Cultura

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A ideia de um suicídio no mar me fascina. Talvez por algo de entrega amorosa, um mergulho onde o objeto de desejo se deixa ser tragado com volúpia. Esta outra morte aquática pode se dar em silencioso desespero, mas sem as duras pedras de Virginia Woolf nos bolsos. Bastaria o nosso próprio pesar, aquele que nos põe de joelhos como a figura de Camille Claudel diante da lareira, sem calor nem aconchego. E com tanta mágoa no mundo, como não querer ser a criança roubada pela fada do poema de Yeats? Se a alma se ressente da falta de gentileza em meio a tantos desencontros, desconsolos... Algum ínfimo alento é possível em uma blueberry pie de uma boulangerie nos Jardins - claro que sem Jude Law no balcão, mas com Cassandra Wilson nos fones de ouvido, revisitando a Harvest moon de Neil Young. Um pocket-nanoconsolo, ali, pertinho da Paulista. Mão de marA mulher, ali, de frente para o mar. A angústia silenciada. Por enquanto. Por causa dele, Netuno de longa cabeleira e barba. Se um dia suicida, …

Ódio de fera, amor de cão - Jardim das delícias, coluna site Revista da Cultura

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Sinto um arrepio quando vejo alguns pais por aí. Mais do que o amor, creio que a raiva e o ódio têm uma eficiência atroz para marcar, tatuar do lado de dentro de um ser humano – que dirá de um filho. Em “A árvore da vida”, há algo desses olhares no personagem de Brad Pitt – como se quisesse que o filho simplesmente desaparecesse, um desejo de morte. Aqui, meu personagem pode sumir e reaparecer magicamente, sem o constrangimento de “Édipo arrasado”, de Woody Allen, neste céu mais para aquele poético e simbólico de “Asas do desejo” e seus anjos caídos. Mas dias e noites podem ser longos e solitários para pais, filhos, todos nós – quando o desamparo e a solidão nos acenam com desespero, “Everybody hurts” (R.E.M)... Às vezes nos falta à vista nosso objeto de amor, para olhar com olhos úmidos, apaixonados e devocionais... Um efêmero antídoto.
Ódio de fera, amor de cão
Ele poderia ter olhares ferozes. O pai. E não só olhares. A mesa virada num golpe, o almoço espalhado pelo chão. A mãe levant…

Estreia Jardim das delícias, coluna site Revista da Cultura: Chá com um cisne

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Aprecio chás, sem ter me tornado uma fã de variações gourmet – nesta cidade onde agora têm se espalhado lugares não só para beber, mas principalmente adquirir infusões de misturas surpreendentes e nomes encantatórios. Minha simpatia é por algo de botica nessas tea shops, de herbário onde se encontraria cura para todas as doenças do corpo - e da alma...
Aqui meu personagem é uma carinhosa brincadeira com um amigo e também homenagem ao mais famoso Nabokov, adaptado por Kubrick – hoje fantasia onipresente que pode assumir ares de perversão. Neste meu caro hotel, em vez de um cool jazz, pode tocar “O cisne”, de “O Carnaval dos Animais”, de Camille Saint-Saëns, na versão com Yo-Yo Ma ao violoncelo. De mood um pouco melancólico, este personagem pode se sentir parte de outro tempo e lugar, talvez da Viena de Schnitzler, talvez da Riviera Francesa de Cary Grant e Grace Kelly em “Ladrão de Casaca”.  
Boa degustação!
Chá com um cisne O homem toma um chá. Supostamente revitalizante. Uma mistura pic…

homem-besta

A unha. Dele. Daquele polegar curto e desproporcional. Dele. Talvez na sucessão das gerações, os pedaços tenham se perdido, encurtando dedos, deformando mãos. A dele, pequena, menor que a dela. Se deixada por conta própria, a unha daquele polegar cresceria como garra. Além de curvar, enegrecer. Por ser enterrada em carnes, caçar, predar. Mais do que vontade, instinto, rastro da besta. Dentro dele. Besta inscrita no interior daquele homem. Outro tipo de tatuagem, de marca de posse e patrimônio. Para além do corpo, também o que fosse aparentado de espírito ou de alma. Tempero para apetecer na devoração. Danada, a besta. Cada vez mais. Envolvendo este homem em um abraço
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Abertura do "Letras em Cena"
20.maio.2013
MASP - Museu de Arte de São Paulo



Leitura de trechos de 

TRAÇO COMUM
crac crac
1,5 litro

PALAVRACIDADE
Casa-Casulo
Casa-Labirinto



Entrevista
http://www.letrasemcena.art.br/html/entrevistas.aspx?EntrevistaID=2044

crac-crac

versão em espanhol de "crac crac", trecho de "Traço comum" tradução de Eduardo Peñuela Cañizal, a quem agradeço - sempre, muito. 
Gresca antigua. Tirria engurruñada por el tiempo.  Retacada conserva en lata. Unos 20 años. Por lo menos.  El sabor granó. Y entonces el gusto fue de veras delicia. De venganza. Después. Ahora, sólo una comezón torpe. Luego cuando supo. En el mismo día. Él volvió. Sí. Para el terruño de 35 mil individuos. Y siempre menguando. Las gentes se van. De muerte o de éxodo ciertamente. Los que permanecen se conocen. Y ahí el chisme es bicho más que suelto. Evidente. Él espera. Un día u otro cae. Claro. Ahí se las verá conmigo. Tiene gracia. Pensó. Armó. Espera. El desafecto es pajarillo. Flacucho. Quiere apretar y sentir el crac-crac de las alitas: quebrándose en la mano cerrada. No pienses que vas a volar así perpetuamente, no. Un día. Claro. Luego. Y de esa manera sucedió. Una noche, aguardó en

Pinóquio, gente inflamável?

Uma dentista queimada viva porque só tinha R$ 30 na conta. Os suspeitos, na cara-de-pau e sem nariz de Pinóquio, assumem o crime no mesmo dia do enterro da vítima e do comentário do governador: bárbaro, uma vergonha.
A foto do jornal é ruim, um sofá estofado azul com um dos lados queimados, mas serve para dizer: sim, isto aconteceu. Em outra foto pequena, uma jovem sorridente de cabelos encaracolados e beca preta da formatura em Odontologia - é o que ninguém afirma, mas todos deduzimos. Daquela mulher, não vemos os dentes, se acaso são perfeitos, modelo para seus futuros pacientes – dentes brancos e limpos, igual ao coração de Jesus, poderia alguém dizer por aí, pelas ruas onde a notícia corre por muitas outras bocas e ouvidos.
Naquela manhã, um homem chega ao consultório: é uma emergência. A dentista logo supõe um canal infiltrado e inflamado, o pus, a dor fazendo latejar a cabeça do pobre coitado. E

ninhos

A PM não mais platinada. Ainda os mesmos olhos pequenos e redondos. A boca delicada que ali, no Fórum, fica sem batom nem gloss. Lábios vestidos de contentamento e orgulho. Naquele momento. Um sorriso. Ela pega então o livro. De capa vermelha. Onde é também personagem. E o guarda. No peito. Sob o colete. À prova de balas. Porque apesar das histórias, de todo sangue, tiros e facadas, o livro ainda pode demandar escudo. Uma fragilidade. Mesmo que imaginária. Herança de sua autora. Esse almejar. Ninho e cuidado. Agora que guardado ali, aquecido, o livro silencia. E espera. Por ela. Sua dona e leitora. Para

Traço comum - lançamento do livro

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