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Mostrando postagens de Novembro, 2013

À beira do Etna - Jardim das delícias, coluna site Revista da Cultura

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Na Sicília, o Etna de novo em erupção. Desta vez, menos furioso, sem viscosos rios de magma nem evacuação de emergência. Não só vulcões, pessoas também podem explodir e jorrar lava, bufar colunas de cinzas e vapores sulfurosos. Ou não. Se extintas no lado de dentro. Não! Que haja um interior de vida incandescente – ainda que passível de descontrole, destruição, queimaduras...

Amores de gente viva que perpassam o texto: “Minuto de silêncio”, de Siegfried Lenz e “Um homem apaixonado”, de Martin Walser.
Love is a warm bearing wave”… (Será?)

À beira do Etna

Ela lê. Os olhos marejam embaçando a visão, impedindo a leitura. Há tempos isso não acontecia. O choro causado pelo empréstimo e ocupação da vida de outra pessoa em palavras impressas. Neste livro, um jovem e seu primeiro amor, uma professora mais velha. Lições jamais esquecidas e se interrompidas abruptamente pela morte, desvio romântico e tão inesperado. Um livro da velhice de um autor.

Uivo mudo - Jardim das delícias, coluna site Revista da Cultura

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A consciência produz uma fissura no homem, uma angústia existencial que não há em nenhuma outra criatura. O estar consigo e no mundo longe de ser apaziguado, é povoado por um imaginário de monstros e criaturas híbridas, cindidas: Lobisomem, Frankenstein, Jekyll e Hyde, Drácula, e ainda outros tantos heróis – também químicos, insetos mutantes. 


Aqui, os homens são um pouco bichos, modificados por uma mentira de mãe, tão comumente alardeada na infância: Eu amo vocês igual. Da inverdade, surge uma rivalidade identitária, tão primordial quanto o próprio afeto. Uma luta inglória.   
Uivo mudo
A mãe ali, deitada na larga cama. Bela adormecida, apesar do mal e seus medicamentos. Os filhos esperam. Em silêncio. O quê. Nenhum rosnar, nenhum suspiro. Só a monitoração de seu pulsar, regular e constante.
Ainda.
O homem-urso disfarça, mas admira o irmão, o homem-lobo. Ainda a mesma atração e repulsa por aquela sua altivez, os olhos de breu, a ferocidade que, bem sabe, se destilava em palavras letais …

Pequena morte - Jardim das delícias, coluna site Revista da Cultura

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Sinto que morri muitas vezes. Por gestos e palavras alheias. Mortes ínfimas e agudas, de uma contundência feroz. Em lugar de um cadáver, resto sobrevivente. Por aí, sorrindo e disfarçando o sangue e as lágrimas, as carnes laceradas. Mas há outras mortes que podem se inscrever inevitavelmente no corpo. Ainda no cedo dos nossos tempos.
Algumas lullabies para embalar sobreviventes: Dean Martin cantando Brahms, Creed, Tom Waits e Norah Jones, além da “Birdland” em versões de Stan Getz e Sarah Vaughan.
A minha favorita do momento é Leonard Cohen: “If your heart is torn, I don’t wonder why. If the night is long, here’s my lullaby”.
Pequena morte
A mãe olha. Aquele montinho de carnes e dobras fabricado dentro dela. Um milagre. Ela olha e espera. Não outro milagre, mas algo tão natural: amor. Procura, vasculha dentro de si. Não acha. Deve estar escondido, daqui a pouco aparece, claro, é instinto.
Os dias passam.
Para além do desconforto, um vácuo. Ali. Em lugar de calor e ternura, nada. Nenhum…

Alforrias - Jardim das delícias, coluna site Revista da Cultura

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Um amigo diz ter preguiça de “mulheres intensas”... Talvez mais do que preguiça, haja temor diante da possibilidade de dominação, devoração ou vingança por parte mulheres não só intensas, mas ameaçadoras como a “Lady Vingança”, do violentíssimo Chan-wook Park, ou a Noiva de Uma Thurman e Tarantino.
Apesar de nossa descartabilidade contemporânea que abarca coisas e pessoas, orgulho e vaidade ainda nos atravessam – de forma contundente quando somos mais objeto do que agente. Pensando na liquidez de Bauman, talvez as pessoas possam constituir nascentes não só de águas cristalinas, mas também de sombrios e cáusticos desejos em velozes e violentas corredeiras.
Alforrias
Ele sorri. Sozinho, olhando-se no espelho. De contentamento, mais de liberdade. Finalmente.  Alforriado do desejo por aquela mulher. Tão jovem. Ela e seus longos cabelos perfumados. A pele macia que cobria suas carnes ainda tão firmes. A boca brilhante de sabor artificial de cereja. Ele ri. A jovem atirada no lixo privativo.