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Testemunho 3 - Esta, uma voz

É muito difícil eu perder a voz. Duas vezes que eu me lembre. Uma por um trabalho – muda de estresse e ansiedade. Na outra vez, por dias. Uma tosse seca que tornava impossível uma simples frase. Inteira e incólume.  Ah, mas isso é tristeza . O veredito da homeopata. Tosse de uma ferida. Do amor de anos. Fraturando. No apartamento na cobertura do prédio de esquina. Longos abraços noturnos. Entre o fícus e o pé de laranjinha. Flores que nunca prosperaram como deveriam. Tanto calor e sol. O manjericão perfumado das sementes trazidas da Itália na mala da mãe dele. Ao relento, aconchego de cartografias há muito mapeadas. Aos sentidos só cabendo o reconhecimento. A cada vez. Muitas. O desejo permeando dia, rotina. Até o afeto fraturar. De vez. Quando a tosse se foi. E ficou a ferida. Depois. No lugar dela,  uma   angústia . O veredito de outro. Muito depois. Um homem tão suave.  Você precisa sentir isso de novo . O afeto. Agora, tenho tosse. E essa angústia. Logo ser...

Testemunho 2 - Elizabeth Loftus

Enigmático, inexplicável. Esse querer. Meu. Por ele, aquele homem. Mesmo sem ter decifrado seus olhares. Tão severos. Para além da superfície. De censura e raiva. O homem contrariado. Por mim. Talvez por si próprio. Uma sabotagem, um atentado. O seu estado de segurança em risco. Eu até quis. Ele, esse descontrole. Se fosse por um querer dele, aparentado do meu. Mas se chegou a brotar, o homem logo se defendeu, municiado. Armadura, tesoura de jardineiro. Mas com aquelas mãos?... Não. Só se usasse luvas. As da alma, esquecia. Se deixava transbordar a brutalidade. Não só naqueles seus olhares. Dias. Muitos. A minha memória, entediada, tenta recriar. As mãos. Dele. Desocupadas de meus mapeamentos, tarefas de cartógrafo. M as aquele homem e suas mãos esmaecem. Polaroide vencendo. Vou    esquecer. Também o querer. Amarelando, perdendo os contornos. Invento.  Memórias.  Outro dia.  

Just in case

Em julgamento, o réu tem o direito de permanecer calado. Como nos seriados americanos. Sem policial dando a fala de cor. A advertência. O que você disser pode ser usado contra você . Aqui. Na plenária, é o próprio juiz quem instrui. Antes. O réu sentado à sua frente. Como um conselho. Sem camaradagem nem tapinha nas costas. Não. Da loira de salto e tailleur branco sob a toga preta. Da morena de ascendência árabe. Do juiz alto, de cavanhaque, precisando urgente de RPG. De Sua Excelência, tão sério e de óculos, ave de rapina, eterno melhor aluno da classe. Do Meritíssimo de olhar de urso manso, grisalho que não é pelúcia. Não.

121 de dois

Nos corredores do Fórum ninguém diz: cometeu 121. Foi 121. Inocentado de 121. 121 com qualificadoras. 121 pede “artigo”, não se deixa tomar assim, nu. No Código Penal brasileiro, o crime, artigo 121, é definido por duas palavras: matar alguém. Depois se seguem os vários parágrafos e incisos sobre culpabilidade, qualificadoras e penas. Já o artigo 171 é pop. Está no Houaiss com hifens. Um-sete-um. A definição do crime demanda muitas palavras mais:   obter, para si ou para outrem, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento. A pena não é pequena:   reclusão, de um a cinco anos, e multa.   Um aparente excesso, se para 121 culposo a pena é de um a três anos. Paradoxal. Chamar o outro de um-sete-um pode ser 121. Para o afeto e a confiança. Aquilo que poderia se constituir entre dois.

Testemunho

Muitas pintas e sardas. Uma mancha castanha. Na lateral do corpo, 5cm acima da crista ilíaca direita. Cartográfica, insular. Ele não vê, pouco afeito a mapeamentos. Nela. Naquele corpo sem marcas. De sol. De tinta em provérbios ou hieróglifos. Não. Algumas cicatrizes. Nenhum hematoma. Pena . É o que ela teria achado. Porque gosta da intensidade do desejo. Dele, este homem. Deixando rastros. Provas indiciais. Passíveis de perícia. A sua própria, depois. Durante o banho. Ao ver, lembrar. Ainda que doa um pouco. Ecoa. Do antes. Agora feito percurso de água e mãos. Pena . É o que ela teria dito. A ele. Durante. Mas não há testemunhas. As palavras se perdem. Durante também. Sussurradas. Talvez ele se lembre.  Depois. Um sorriso de olhos fechados e sobrancelhas franzidas. O beijo sugando seu lábio inferior. Dele. Da boca que ela achou tão bonita. Sem chegar a confessar. Não. (quando?) Os elogios, qualificadores de outra ordem. Então e também depois. O homem percorrendo os inter...

Extra foncé

No jornal, na internet, na TV. O sobrenome japonês. Fico curiosa. Um marido aos pedaços. Em três malas, se não iguais, parecidas. Ainda não vi a mulher. Se há algo das figuras aquáticas, de filmes de terror. Longos cabelos lisos mais do que para esconder, amedrontar. O susto. O pulo no sofá. Horror, horror. O riso nervoso. A pipoca espalhada pelo chão. Justo a pipoca. Uma ironia. Depois, a pizza. Talvez. Não se sabe se o homem chegou a comer. Pagou, pegou na portaria. No elevador, sobe até o último andar. Espera apoiado na parede. Entediado e só. Normal. Pela última vez. Sem imaginar aquele seu corpo. Pouco depois. Esquartejado, sem inventário da comida no estômago. Pedaço posto em um saco. Azul, de lixo. Como todo o resto. Das carnes e dos ossos. Nos sacos azuis, de rolo. Grandes demais. Cem litros. Nenhuma mancha. Pouca, esta ocupação. Muito, seria seu espanto. Horror, horror. Sacos iguais aqui na despensa de casa, acho. Por causa da fita que esvoaça na imagem na TV. Vermelha e ...

Uns porquinhos

Não disse quantos eram. Usou plural. Talvez dois. Grandes e gordos. Cor-de-rosa. Pensou em três. Como na história de criança. O promotor podia ser seu lobo mau, soprando a casinha da sua versão do crime. Lobo velho. De branco e preto. Branco dos cabelos e preto da toga. Feito um vestido. E de óculos. Mais para vovozinha. Sem touca para dormir. Ele, sem cesta de guloseimas. Não. Essa era outra história. A cabeça às vezes dá voltas. Não sabe bem. Sabe que foi-se o desafeto. Contou que ele chegou armado. Atirando. Os porquinhos dentro do fusca. Que fusca? É... O do freguês? Não tem certeza do que disse. E quando mesmo? Tanta gente perguntando. Na delegacia, na audiência, no fórum e no julgamento, o advogado, o promotor e o juiz. Não podia repetir sempre a mesma história. Mesmo que fosse verdade. E essa já não sabe bem. Virou um angu. Hum. Melhor acreditar nessa outra. A dos porquinhos. O promotor vovozinho quase gargalhava. E os porquinhos?!