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O filho do pai - Jardim das delícias - site Revista da Cultura

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Algumas heranças não entram em inventário, não são alvo de disputa. Difícil precisar se poderiam ser também escolhas, eleições em resposta à rejeição e ao abandono, reação inconsciente diante de um incompreensível e inaceitável desamor. Um outro adicto na interpretação memorável de Jack Lemmon em “The days of wine and roses”, de Blake Edwards, com música de Henry Mancini para a letra de Johnny Mercer: “The days of wine and roses laugh and run away like a child at play Through a meadow land toward a closing door A door marked ‘nevermore’ that wasn't there before” O filho do pai Batem na porta. É madrugada. A mulher sabe. Ali. Sentada no sofá. É ele. Sabia e esperava. Mas ela não abre. De medo. Da violência. A boca seca. As mãos frias. Ela, ali. Quieta, sentada na escuridão. No breu desses seus dias. Dessas noites tão longas. De pressão oscilando. Alta de preocupação. Baixa de vontade de morrer. É. Ela não abre para não ver aqueles olhos. Azuis como os de...

Nela. Na lua. - Jardim das delícias - site Revista da Cultura

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Uma mulher linda e tão divertida. Um homem quase perfeito não fosse a feiura. Ela se apaixona. Ele, intelectual e  blasé , simplesmente não a quer. Acontece. Rejeição feita humilhação. Se ela se sente inferior, incapaz de ser par – inigualável, irresistível. Não. E então da gravidade da dor, ela inventa uma falta de gravidade: uma amorosa flutuação - lunar.   Uma mulher linda e tão divertida. Um homem quase perfeito não fosse a feiura. Ela se apaixona. Ele, intelectual e blasé , simplesmente não a quer. Acontece. Rejeição feita humilhação. Se ela se sente inferior, incapaz de ser par – inigualável, irresistível. Não. E então da gravidade da dor, ela inventa uma falta de gravidade: uma amorosa flutuação - lunar. Moon song , de Karen O e Spike Jonze, na voz rouca de Scarlett Johansson, da trilha de Ela - minha mais recente paixão fílmica... Nela. Na lua. Para I. A mulher troca de roupa enquanto conversa. Com ele. Homem ausente. Agora, só lembrança e imaginação....

Um filho de Allah - Jardim das delícias - site Revista da Cultura

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Cada um recebe um “bauzinho” na vida, uma herança familiar e social. Raro ter fortuna. Obrigatório vir com valores e padrões de comportamento, de pensamento, de vida. Frequente não querermos tudo. Mas para jogar fora, é preciso fazer inventário... E, como outros, este também pode demorar. Anos, décadas. E de repente, podemos nos perceber “vestindo” valores dos pais, “calçando” expectativas da sociedade. Ensemble que pode não se fazer em nós sinônimo de realização, de contentamento... Um “bauzinho” em forma de uma tradicional bakery dinamarquesa: Em família , filme de Pernille Fischer Christensen. Allah-la-ô , marchinha de Haroldo Lobo e Nássara, na versão gentil de Maria Bethânia. Um filho de Allah Na rua, uma família de homem, mulher e o filho ainda menino. Na rua, muitos outros. Quase crianças. Embriagados de riso e cerveja. Três por dez. No isopor carregado no ombro, empurrado no carrinho. Um até aceita cartão. O homem abre uma latinha e olha ao redor. Garotas de...

Uma sereia holandesa - Jardim das delícias - site Revista da Cultura

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Ela nos atende com um sorriso de gentileza. E nós, distraídos, só sorrisos. Se faz tanto sol, se o mar está tão lindo. Nada para pensar a não ser na fome de ceviche ou de lulas, na dúvida entre vinho branco ou caipirinha de uma boa cachaça local. Ali, uma sereia de olhos líquidos. Menos mar, mais lágrimas. Ninguém presta atenção. Ela então esconde a cauda, cala os cânticos e oferece o cardápio. Sugere robalo, sorri. Para além de Vermeer e seu brinco de pérolas, seres muito ou pouco imaginários:  “The Land of Heart's Desire” peça de W. B. Yeats e “Song to the Moon”, da ópera “Rusalka”, de A. Dvořák. Uma sereia holandesa   Um dia ela chega também voando. De uma terra de luzes e sombras. Ela, muito hippie e nada mítica. Loira, linda e de olhos transparentes. De olhar e alma aquosos. Mais, no susto deste sol tão explícito. Sem meios-tons. Como os homens. Tanto impulso e vontade. Também aquele. Magro, de olhos grandes e castanhos. Breu para perder e desnortear. A v...

Lágrimas de poça - Jardim das delícias - site Revista da Cultura

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A escrita nem sempre é autobiográfica, mas é fatalmente atravessada, perpassada pela vida, se alguma permeabilidade é mesmo inevitável. Mas no empenho semanal deste meu “Jardim das delícias” por vezes me pergunto de onde vêm esses personagens que podem causar estranhamento, um incômodo amargor na alma. Sem resposta, assumo que escrever tenha bem pouco de conforto, mais de tentativa de apaziguamento - “olé” de toureiro frente uma besta desafiadora e incansável. De um golpe, sei que por vezes sou lançada ao ar, finalmente atingida. Minha vez de ser atravessada, revide da escritura.  “Memorial”, de Michael Nyman, da trilha de “O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante” Lágrimas de poça Na casa. Um pai morto e fantasmático. Um padrasto violento sem rosto nem voz. Uma mãe passiva de muita exaustão. Um menino inocente e assustado. Uma menina de infância violada, mas que vê e ouve tudo: vivos, morto. Menina criança velha, capaz de agir. Matar. Família outra, escrit...

Calvin - Jardim das delícias - site Revista da Cultura

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Virtuais e expressos podem ainda assim constituir amores? Se há confiança e confidências. Se a cumplicidade se instala mesmo que na impossibilidade. Do calor, do cheiro e sabor dos corpos. Da textura da pele, do entreabrir a boca e fechar os olhos. Pela internet, um erotismo despejado nos ouvidos, teclado na urgência e no susto. Para ‘contaminar’ a leitura das palavras: as cores e a fotografia de “Amores expressos”, de Wong Kar-Wai, a voz de Cassandra Wilson em “Little warm death”. “But now I feel you near me See you much more clearly I can hardly wait to Feel you moving through my world oh my world Isn’t deep without you” Calvin Máxima prevista de 35⁰C. Sensação térmica de 38⁰C. A cidade imersa em calor e caos. Os ânimos das pessoas se acirram. As vontades amolecem. A mulher está em casa. A pele já suada. Mesmo se acaba de tomar banho. Frio, de sal grosso. Quer a pele lisa e limpa. Quer a alma leve e livre. De pensamentos obsessivos. De sombras...

Virginia - Jardim das delícias - site Revista da Cultura

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Diante de mortes recentes, disse para um amigo que, se pudesse, doaria anos meus. Tenho a sensação de que serão muitos. Talvez demais - uma ameaça. Meu viver me parece extenso, distendido. Se há muito recuo e acovardamento por aí. Preferia uma vida mais compacta, mais cheia de som e fúria. Sim. E aí, na conta final, uns anos a menos. A mais. Para que um cineasta fizesse ainda um filme. Para que um ator pudesse realizar mais de seus mergulhos - de pescador de águas profundas e espécimes raros. Não. Doar anos não é regra do jogo. Restam então saudades. De filmes não realizados. De pessoas que partiram. De dias não vividos. De sons. De outras, boas fúrias. Do ator, a alma em uma animação, das minhas mais acalentadas: “Mary and Max”, de Adam Elliot. Do cineasta, compaixão e sua incomparável empatia. Virginia O pé pesa sobre o acelerador. O salto alto do sapato favorito. Vermelho. O carro faz a curva. E se não fizesse. O muro. A pista contrária. Uma árvore, um poste.  ...