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Um homem feio

Um homem feio. Equino. A cara comprida, a embocadura refreada. Na sua vez. Da boca, a voz aguda. Sem relinchar nem mostrar os dentes. Da boca, um pedido de absolvição. Porque mentem. Vítima e réu. Ambos negros e pobres e presos. Outros delitos. Muitos. A folha corrida. Extensa. De pena cumprida. Parte. O homem pede. Sem poder mandar. Ainda alguma confiança naquele júri. Três homens e quatro mulheres. A senhora de flores. No vestido e no cabelo. Mansa. Essa absolve. Sempre. Incapaz de condenar. Porque é de sua fé. O perdão. Até um dia. Quando a fé estremece. De horror. Isso não é do homem. Mas hoje não. Sem morte. Uns tiros. Muito ódio. Nenhum motivo.  Absolvição. O homem equino pede, contrariado. Não é de sua função. Do poder nele investido. Da toga preta e dos pingentes. Vermelhos. A toga, hoje, entreaberta. À mostra o tronco, a gravata lilás. Da boca, a fala curta. Logo cala para ouvir. O outro. De toga preta e pingentes brancos. De sobrenome italiano e gestos-clichê. O hom...

sobre patas

Ela dispara. Em direção a outro. Palavras, um pedido de socorro. Mais de escoamento. Sem poder despejar a quem de direito. O desejo. Excessivo, perturbador. Ela dispara. Um tiro, correria. E logo puxa as rédeas, cerrando a embocadura. A sua própria. Aquieta, emudece. Tão cordata, à espera. Dele. Por ele. Ainda sobre as patas. Mansa. Mais na aparência. As rédeas soltas. O dorso sem sela nem montaria. Ela só pisca. E espera. Ainda. Sem tocaia nem plano. De sequestro ou de fuga. Sem cowboy saltando do balcão. Bruto, tão masculino. Ela sem gritos de mocinha, histeria de filha indefesa do xerife. Não. Outros gritos. E se disparou há tão pouco. Fumega. Por dentro. Um pouco ser imaginário. Logo o homem acusa o golpe. Este que só faz crescer a ausência do outro. Atingido, este a

12H2O + 6CO2 → 6O2 + 6H2O + C6H12O6

De óculos escuros. Mesmo ali, no trem. Pela janela, o túnel. Flashes verde neon. Códigos de letras e números. Ilegíveis, por decifrar. E porque a mulher não tem cabresto, desvia o olhar. À sua frente, no banco oposto. Um homem. Bonito . Pensamento que lhe escapa. De olhos pequenos e escuros. Outro túnel. Ela não percebe. Mas ele, sim. Para além do olhar, o sorrir. Dela. Pequeno, sem saber de si. Só lábios e intenção. Sim. Ela gosta. Daquela beleza humilde. Sem ostentar nem ofender. Sim. Mas... o homem está de chinelo. Assim como a mulher. Aquela outra, ao lado dele. A mulher de óculos então inventa. Um casal. Uma história. Um homem bonito de pés acalorados. Um casal em viagem. Calados e sérios. Tanto cansaço. Tempo demais. Tanto costume. Da voz, do jeito e dos gostos. Do sabor do suor e da saliva. A história também em flash. Passa. Veloz. Logo chega. Estação terminal. Todos descem. O casal de chinelos, a mulher de óculos. Ela não olha mais para ele. Passou, já esqueceu. Não. Ant...

Everybody lies

Além de calar, é possível mentir. Impunemente. Não sei. Não vi. Não fui eu . Mesmo sob juramento. Aquele, ele fez sem que ela pedisse. O homem suave. A voz grave, cheia de ar. Uma promessa sussurrada. Natimorta. Ele faz questão. Apesar da ameaça. Dela. Você vai me perder. De novo. Na promessa, a incapacidade. Everybody lies . Filosofia de seriado de TV. Ele não sabe do doutor. Nem de si próprio. Então mente no próprio prometer. Deixando transparecer a patologia. Ainda sem prognóstico. Sintoma preocupante. De caráter. Do pior, fatal.   Na intimidade, a mentira ainda pode ser doce. Rêveuse . Revés. No Tribunal do Júri, a mentira ainda pode ser escancarada. A mãe. O réu. A testemunha. Tão gostosa e à mostra. Os ombros, a barriga, a falta de pudor. 

Testemunho 3 - Esta, uma voz

É muito difícil eu perder a voz. Duas vezes que eu me lembre. Uma por um trabalho – muda de estresse e ansiedade. Na outra vez, por dias. Uma tosse seca que tornava impossível uma simples frase. Inteira e incólume.  Ah, mas isso é tristeza . O veredito da homeopata. Tosse de uma ferida. Do amor de anos. Fraturando. No apartamento na cobertura do prédio de esquina. Longos abraços noturnos. Entre o fícus e o pé de laranjinha. Flores que nunca prosperaram como deveriam. Tanto calor e sol. O manjericão perfumado das sementes trazidas da Itália na mala da mãe dele. Ao relento, aconchego de cartografias há muito mapeadas. Aos sentidos só cabendo o reconhecimento. A cada vez. Muitas. O desejo permeando dia, rotina. Até o afeto fraturar. De vez. Quando a tosse se foi. E ficou a ferida. Depois. No lugar dela,  uma   angústia . O veredito de outro. Muito depois. Um homem tão suave.  Você precisa sentir isso de novo . O afeto. Agora, tenho tosse. E essa angústia. Logo ser...

Testemunho 2 - Elizabeth Loftus

Enigmático, inexplicável. Esse querer. Meu. Por ele, aquele homem. Mesmo sem ter decifrado seus olhares. Tão severos. Para além da superfície. De censura e raiva. O homem contrariado. Por mim. Talvez por si próprio. Uma sabotagem, um atentado. O seu estado de segurança em risco. Eu até quis. Ele, esse descontrole. Se fosse por um querer dele, aparentado do meu. Mas se chegou a brotar, o homem logo se defendeu, municiado. Armadura, tesoura de jardineiro. Mas com aquelas mãos?... Não. Só se usasse luvas. As da alma, esquecia. Se deixava transbordar a brutalidade. Não só naqueles seus olhares. Dias. Muitos. A minha memória, entediada, tenta recriar. As mãos. Dele. Desocupadas de meus mapeamentos, tarefas de cartógrafo. M as aquele homem e suas mãos esmaecem. Polaroide vencendo. Vou    esquecer. Também o querer. Amarelando, perdendo os contornos. Invento.  Memórias.  Outro dia.  

Just in case

Em julgamento, o réu tem o direito de permanecer calado. Como nos seriados americanos. Sem policial dando a fala de cor. A advertência. O que você disser pode ser usado contra você . Aqui. Na plenária, é o próprio juiz quem instrui. Antes. O réu sentado à sua frente. Como um conselho. Sem camaradagem nem tapinha nas costas. Não. Da loira de salto e tailleur branco sob a toga preta. Da morena de ascendência árabe. Do juiz alto, de cavanhaque, precisando urgente de RPG. De Sua Excelência, tão sério e de óculos, ave de rapina, eterno melhor aluno da classe. Do Meritíssimo de olhar de urso manso, grisalho que não é pelúcia. Não.